universos

eu me sinto muito sozinha, às vezes. principalmente quando chega a noite e minha mente começa a funcionar numa velocidade de quatrocentos e trinta por segundo.
como se a dominação do mundo fosse um cenário super provável. como se todos os planos que tenho feito nos últimos anos parecessem viáveis, assim, de uma hora para outra. até mesmo os mais birabolantes, que não podem sequer sair da minha mente através de palavras de tão absurdos que são. como se tudo fizesse sentido — ao mesmo tempo em que nada tem explicação.
nessas situações me sinto agudamente solitária devido à vontade irracional que sinto em abrir uma conversa, em alguma de minha redes sociais, e falar sobre todas as teorias de conspiração que têm sido ignoradas.

quero falar como eu consigo sentir algo inexplicável por você mesmo depois de todos esses anos e, ainda assim, sinto falta de falar com uma paixão platônica que não tinha nenhuma possibilidade de sair do platônico — por mais remota que fosse, por mais que o impossível seja só uma perspectiva. talvez essa falta seja por todo o abismo de diferenças que o platônico exige e por todo o complemento que as similitudes preenchem. e no nosso caso (bem, não existia nenhum nosso e menos ainda caso algum) as diferenças eram ainda mais abismais do que o esperado e as similitudes existiam, talvez, apenas na minha cabeça. ah, o platônico. mas com você não. com você era tudo real até demais. e hoje eu falei de você mais uma vez. dessa vez pra uma pessoa com a qual eu mal costumo falar desse tipo de coisa e ela lembrou de você e soltou um: vocês combinavam.
minha mãe sempre falou que se um dia eu me casasse, o meu cara no altar seria você. minha avó sempre sonhou com isso e sempre me perguntou: ‘ah, mas por que não?’. meu irmão caçula era seu fã — você tem isso em comum comigo (mais isso): quando você quer cativar uma pessoa e investir nisso, você o faz e a pessoa lembra de você pra sempre. meu irmão mais velho ria ao ouvir seu nome. e meu pai fugia de você — porque sabia o efeito que você tinha em mim.
a gente tinha (ou tem?) tanto em comum. e quem diz que isso é bom é porque nunca nos viu discutindo no meio da praça sobre nossas divergências políticas. e esse é um dos meus maiores medos porque a visão política diz tanto sobre uma pessoa e, bem, você não é má pessoa mas o que pensamos de diferente às vezes me faz querer chorar — te juro que dessa vez não é mais um dos meus dramas que se assemelham as tuas comédias românticas.
não sei.
talvez eu esteja intensificando tudo porque é isso que eu faço. eu sinto demais. eu fico feliz até quando me dão bom dia ou sorriem pra mim na rua e me sinto uma pessoa horrível se alguém me responde mal um boa tarde (e às vezes nem tem nada a ver comigo).
você entende o que quero dizer? que talvez não seja isso tudo, afinal, já são tantos anos. tantos outros amores que você viveu. que eu vivi. ou que tentamos viver — e falhamos, talvez. quem pode dizer quando se falha no amor, não é mesmo?
talvez essa seja só mais uma das nossas brincadeiras e por eu estar em um momento de sensibilidade (oh, que novidade se tratando de mim!) esteja vendo tudo sob essa perspectiva e essa lente, quiçá, errônea.
dizem que o tempo é senhor de tudo. que o tempo revela o que tem de ser e o que não tem de ser. confesso que não acredito que essa responsabilidade toda se deva somente ao tempo — afinal, o que é o tempo além da medição das horas, dias, meses e anos, não é mesmo? de toda forma, deixa estar. acredito que tudo se revelará.
tenho orado pra isso. emanado energias nessa direção.
como minha mãe falou: chega um momento que a gente se fecha depois de tanta decepção. e eu me fechei sem sequer perceber. e você voltou.
como você sempre faz.
nem sempre nos meus melhores momentos.
isso tudo não tem muita explicação. e se tiver, gostaria de entendê-la. como dizem os senhores da internet: numa apresentação em power point, por favor. para que não reste nenhuma dúvida despeito de nada.
espero que não demore muito para que tudo tome seu lugar. seja lá qual for o lugar desse tudo. seja lá o que o que for esse tudo.
se for ficar, me avisa. se bem que você nunca foi embora de verdade. nem da minha vida, nem de dentro de mim. e eu ainda não decidi se isso é bom ou ruim — e olha que não paro de pensar sobre tudo isso. são tantas as teorias.
um universo inteiro.

e eu vejo universos quando vejo você. mas já faz um tempo que eu não te vejo. a distância nos uniu. que irônico. mais uma coisa totalmente inversa do comum, pudera se tratando de nós. eu vejo universos inteiros em você.

maria.

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cheia de você.

to começando esse texto de atrevida. sem saber muito bem o que escrever. mas a mente anda cheia, a ponto de não estar acertando sequer 25% das questões que me propus a fazer na última hora. tenho falado tanto de você nos últimos meses.
enchido o saco da minha amiga a seu respeito. enchido a caixa do whatsapp da minha mãe e até mesmo da minha avó para falar sobre você, não tenho suportado deixar os pensamentos apenas para mim mesma. ontem, inclusive, enchi meu melhor amigo que não vejo a mais de dez meses e, apesar de ter mil coisas para falarmos, adivinha de quê eu falei? pois é, de você.
sobre o quanto você tem me encantado mais a cada dia que passa. o quanto meus dias têm se tornado mais gostosos (e, ouso dizer, que até mesmo menos dolorosos de se viver, ainda que as frustrações tenham ameaçado minha frágil sanidade) só por ter você por perto. pena que nem tão perto assim.

e, bem, o dia de ontem ficou gravado na minha mente (ouso dizer na minha alma) como a última tatuagem que fiz na quinta. seus olhares sobre mim queimaram mais do que as milhares de agulhas no meu pescoço. sua erguida de sobrancelha, um tanto quanto sugestiva e, ainda assim, não o suficiente; seu sorrisinho de canto. ah, o flerte. não acho adjetivo algum capaz de nomear o que teu flerte é capaz de fazer comigo. não sei nem se posso chamar de flerte ou se é só você sendo você. outra coisa que você causa em mim e me faz querer gritar contigo: confusão.

puta merda, cara (enquanto digito isso, lembro de você repetindo essa frase quando eu estava te explicando algo e você gostou). eu já sou confusa demais para você vir me confundir ainda mais. não faz isso. não me olha assim. não sorri assim para mim. não ergue a sobrancelha desse jeito. não fala que está acostumado a me olhar…

lembro da primeira vez que sua pele tocou na minha. nesse dia — uma tarde quente demais para um dia de primavera, se bem me recordo —, eu vestia uma das minhas calças preferidas que, para calhar, é extremamente rasgada nos joelhos. e, enquanto você escrevia algo na minha folha rabiscada, sua mão encostou no meu joelho e naquele momento, eu senti meu corpo congelar, enquanto saía faíscas de mim, se é que é possível tamanha contradição (se bem que é possível sim, já que desde que te conheci é exatamente isso que eu tenho feito: me contradizer). e ontem outra vez. duas vezes, na verdade. você segurou minha mão tão firme, quando sequer era necessário. e, mais tarde, de novo.
enquanto escrevo isso, poupando detalhes, minha mente não os poupa. eu lembro de tudo em câmera lenta. lembro de quando te vi a primeira vez e do quanto foi louco porque eu comentei de cara ‘quem é esse aí?’ e minha amiga deu de ombros. e, depois, ao perceber que eu estava te levando a sério demais, levando a sério demais a brincadeira de ‘mas ele é interessante, né?’, ela ficou extremamente assustada.
é louco imaginar que esses são os últimos dias que eu vou te ver esse ano. e que talvez próximo ano não nos cruzemos mais. e que em sete anos eu não faço ideia do que se pode passar. é louco e me deixa ansiosa (assim como tudo que você tem me feito sentir). me faz querer te mandar uma mensagem. ou te propor comprar uma passagem. e eu começo a pensar que a vida é uma só para deixar a oportunidade passar.
e eu nem te conheço de verdade. não que nessa vida alguém conheça outrem de verdade, não conhecemos sequer a nós mesmos. tudo é ilusão.
mas a verdade é que eu me dei conta que eu gosto mesmo de você. talvez no começo tenha surgido tudo como uma brincadeira ou algo assim. mas eu acabei me apaixonando.
eu gosto do seu cabelo que nunca tá com um corte certinho, e sempre que eu penso que tu vai deixar maiorzinho, tu aparece com ele de outro jeito. você tá sempre inventando algo. eu gosto da sua barba que parece brilhar quando bate a luz. do seu sotaque chiado. do seu humor as vezes infantil, as vezes pesado. eu gosto de você tentando falar palavras na minha língua e tentando me ensinar expressões na sua (e me dizendo que ‘no pasa nada’ porque você entende). eu gosto do seu cheiro e da sua agonia, você está sempre com pressa. ao mesmo tempo que eu gosto da sua calma. eu gosto de como você é bravo. e calmo. e de como nós nos parecemos (e de como algumas pessoas percebem essas similitudes). e de como você é tantos em um só.
a verdade é que eu gosto mesmo é de você.
meu amigo uma vez me disse que eu tenho o dom de conhecer as pessoas só de observá-las. que eu descubro muito delas só em olhar para como elas lidam com coisas corriqueiras. e talvez ele esteja certo. porque todas as ideias que eu criei sobre você, você vem confirmando nos últimos dias.
você me surpreende a cada dia. e eu não sei a que proporção isso é bom.
te vejo daqui a uma semana, dois meses ou nunca mais?
nunca mais é muito tempo. esse planeta é pequeno demais. essa cidade então, nem se fala. e nós somos enormes.
e ainda melhores quando juntos. só te falta descobrir isso. me deixa te mostrar o que você ainda não sabe. me ensina o que eu ainda não entendi. e preenche logo esse vazio que tu tem deixado quando os dias chegam ao fim.

maria.

mais um para você

oi, big bro. como vai você?

nos últimos dias tenho escutado com frequência uma música que me lembra muito você. o tempo passa mas eu não te esqueço. pelo contrário, quanto mais o tempo passa, mais eu sinto tua falta.

e mais aumenta a dor e não há nenhuma graça em saber que o dia de voltar para casa está se aproximando e você não estará lá me esperando.

para rir de mim enquanto eu conto todos os desastres cometidos por mim nesses últimos meses longe. você acredita que teve um dia que eu estava prestes a entrar na biblioteca (e passar um par de horas com a bunda sentada numa cadeira desconfortável pra cacete) quando um pombo simplesmente decidiu alçar vôo e cagar bem no meu braço no dia que eu vesti uma blusa branca? eu tive que trocar por um moletom da minha amiga (e morrer de calor porque essa cidade tem um tempo tão bipolar quanto minha personalidade). você também ia rir quando eu te contasse do dia que eu fui pela primeira vez numa festa aqui, era aniversário de uma das meninas que mora comigo e na volta pra casa pegamos o ônibus errado e, adivinha? quase fomos parar numa província lá na casa de caralho. e você ia rir de como eu sempre faço tempestade num copo d’agua de tudo e de como eu to com o cu na mão sentindo que tudo está afundando. dando pra trás. mas ao mesmo tempo eu tenho tentado confiar em Deus em todas as áreas da minha vida.

e você ia me chamar de implicante quando eu te contasse que eu não gosto da grande maioria das pessoas que eu conheço — ou pelo menos não faço a mínima questão delas. e ia se orgulhar quando visse que eu to fazendo uma questão bem grandinha por um par de outras.

e ah, você ia gargalhar e me chamar de tabacuda quando eu te contasse que eu passei todo esse tempo sem me apaixonar por ninguém mas que nos quarenta e cinco do segundo tempo eu estou simplesmente com os quatro pneus arreados por uma pessoa que praticamente não me nota. igual quando você estava na porta da geladeira naquela tarde, olhou pra mãe, olhou pra mim e perguntou ‘mentira que tu tá ficando com ele, ne, maria?’

eu sinto tanto sua falta.

em meses eternos como esse, então. em anos pesados como esse. desde que você se foi parece que tudo piorou ainda mais no universo. eu me sinto cada vez mais sozinha. e eu tenho me esforçado para ser uma pessoa melhor. e você acredita que as pessoas acham que se esforçar é uma coisa ruim? e que ser educadas é um esforço desnecessário? pois é. cada dia que passa eu tenho mais certeza daquele plano louco que eu tinha desde pirralha, lembra? de morar numa montanha distante. e bem pertinho do céu. quem sabe assim eu não te sinto mais pertinho.

ontem eu li uma coisa e eu queria que fosse daquele jeito: nos dias dois de novembro, a gente deveria visitar o céu pra encontrar quem nos deixou aqui. pelo menos uma vez no ano eu queria poder te ver de novo.

mas até lá, vou revivendo as milhares de memórias maravilhosas que você deixou.  obrigada por tudo. eu te amo pra sempre.

e esse é mais um desabafo que eu queria soltar na tua aba do whatsapp ou numa madrugada aleatoria em que só estivéssemos você e eu acordados, assistindo algum filme aleatório. mas eu solto numa plataforma aleatoria da internet pois a possibilidade de tocar alguém existe e eu acredito na educação, no esforço e no amor. independente de qualquer coisa.

maria.

vai dar certo

tudo vai dar certo. essa é a frase que tenho repetido inúmeras vezes para mim mesma e para aqueles que me cercam e estão atentos aos meus discursos.
independente do que signifique dar certo.
eu costumava repetir que era uma pessoa sem sorte. e que não sabia o que era dar certo. típico discurso errôneo e deprimido, de quem já não tem muita esperança.
hoje percebo que eu sei dar certo. que eu dei certo, na verdade — ainda que quem olhe de fora não veja muita coisa construída por mim ou até mesmo em mim. eu dei certo porque mesmo diante de todas as situações que me enfraqueciam e faziam desanimar, eu continuei. nem sempre com a cabeça erguida. nem sempre acreditando. nem sempre com muita fé. mas ainda assim continuei. porque mesmo cética, eu sabia em algum lugar dentro de mim que algo daria certo. que tudo ficaria bem. mesmo nas noites em que eu quis desesperadamente que minha vida acabasse. que tudo tivesse um fim. que a minha dor cessasse.
a dor não cessou. mas eu me fortaleci. e, por mais piegas que possa parecer: sobrevivi. sobrevivi a todos os dias maus e vivi todos os dias bons.
nunca fui uma pessoa que acreditava muito em mim mesma. nunca acreditei muito em mim e sequer na minha capacidade — costumava dar mais crédito a minha incapacidade. não vou ser hipócrita e dizer que isso mudou da água para o vinho. que sou cento e um por cento confiante de mim. seria uma inverdade. mas hoje eu sei — ou melhor, tento não esquecer — que tudo vai acabar bem. que tudo vai encontrar uma forma de dar certo.
mesmo que não saia como eu planejei. melhor ainda se não sair como eu planejei porque meus planos são falhos e humanos demais. e toda a humanidade que há em mim é estúpida, ainda que esteja coberta de boas intenções. prefiro e quero que seja do jeitinho que Ele designou para mim, por mais clichê que possa parecer. e, principalmente, que eu saiba lidar quando tudo parecer errado e for incerto. porque essa é a parte mais difícil: saber lidar.
entrego. confio. espero. agradeço. confesso que esperar tem sido a parte mais difícil. paciência nunca foi meu forte e eu só queria saber como tudo vai acabar. só queria ter uma certeza de que é por aqui o caminho.

tenho aprendido e crescido muito nos últimos meses. aprendi mais sobre mim, sobre amor, amizade, comunhão, compaixão; sobre a capacidade do ser humano em ser bom e em ser mau do que até mesmo sobre uniao covalente ou qualquer outra coisa do tipo evolução e derivadas, ao qual tenho dedicado grande parte dos meus dias. a construção e evolução pessoal é importante também.
te agradeço, Pai. pelas pessoas que puseste em minha vida e, acima de tudo, pelas que tiraste. te agradeço.

e me perdoa por não ser boa em agradecer e reconhecer toda a bondade que tens feito.
maria.

ao meu pai.

hoje meu pai me mandou uma mensagem dizendo que lembrou de mim com um filme. e eu não poderia ter ficado mais feliz.

em pleno domingo de preguiça. a quilômetros de distância. a horas de saudades.

meu pai lembrou de mim. com um típico filme que assistiríamos juntos. cheio de violência. um filme que diz muito sobre mim, sobre ele e sobre nossa relação. sinto saudades dele. todos os dias. mais do que imaginava que sentiria.

todas as vezes em que pego um metrô e me deparo com menininhas acompanhadas dos pais, lembro de quando meu pai ia me buscar no colégio – e de quando ele esquecia de me buscar no colégio e eu ficava uma mini fera, com um metro e meio, franjinha, mochila de rodinhas; voltava o percurso até em casa de cara amarrada. lembro quando ele começou a me ensinar a andar de bicicleta. mesmo não sendo a pessoa mais paciente do mundo e eu sendo a mais desajeitada. somos opostos e, ainda assim, extremamente parecidos. o que causava irritação nele era sempre algo que eu odiava também (ou que, ironicamente, eu adorava).

meu pai sempre foi meu herói mas eu nunca consegui dizer isso para ele. talvez pelo fato de nossas personalidades serem tão parecidas.

eu nunca fui a típica filhinha de papai pela qual ele esperou. pelo contrário, me tornei adolescente rápido demais, me interessei por assuntos polêmicos demais – e dos quais, na maioria das vezes, ele nunca tinha ouvido falar ou parado para pensar a respeito.

sempre tive uma perspectiva de vida maluca. e mostrei uma visão de mundo totalmente diferente da visão de mundo a qual meu pai estava acostumado. cresci num mundo tecnológico e desesperado. cresci querendo viajar o mundo. dominar doze línguas. ter três especialidades. não ter filhos e talvez nunca casar. ele passou a maior parte da infância e adolescência entre o campo e a praia (o que também me encanta mas que, nos meus planos, se encaixava apenas nas férias).

hoje, faltando três dias para meu pai comemorar mais um inverno, não estou ao lado dele. mas acredito que, como de praxe, serei a primeira a mandar mensagem (e assustá-lo por ser um sms as 12h da madrugada).

meu pai nunca foi de muitas declarações mas eu nunca vou esquecer todas as palavras de incentivo que ele já me disse um dia. todas as vezes em que ele apoiou algum sonho louco – incluindo mudar de país sem conhecer nada ou mesmo dominar a língua. todas as vezes em que se ofereceu para uma caminhada na praia ao me ver trancada a semana inteira no quarto ou todas as vezes em que orou por mim e me incentivou a ir a igreja para que fortalecermos a fé juntos. quando me disse que eu era especial – e me fez acreditar nisso quando mais ninguém no mundo foi capaz (nem minha querida psicóloga depois de inúmeras sessões ou mesmo meu psiquiatra depois de trocar meus remédios a cada quinze dias). quando me fez acreditar que só eu poderia ajuda-lo a resolver alguma coisa – mesmo que fosse a simplesmente fazer download de algum aplicativo no celular.

enquanto escrevo isso, em meio a pausas no filme que ele me recomendou, penso sobre uma das muitas conversas que já tive com minha mãe (e alguns textos que li) a despeito como nossa família e cada pessoa com quem cruzamos nesse mundo e na nossa caminhada é um presente divino.

meu pai me ensinou muito sobre respeito, caráter e resiliência. tenho tanto para falar e escrever sobre ele que daria um livro. histórias de meu pai. amores para meu pai.

títulos. nunca fui boa com títulos. meu pai sempre foi ótimo com isso. ele quem escolhia os nomes de todas as criações que tínhamos em casa – com a ajuda da minha mãe é claro. ao lado de todo grande homem existe uma grande mulher, como dizem por aí, afinal.

obrigada, pai. por me alegrar de longe. por me ensinar. por acreditar em mim e por repetir que tudo daria certo quando eu não acreditava mais. obrigada por me ajudar a voltar a acreditar sempre. todos os dias.

eu te amo, sua filha mais chata. saudades das nossas discussões de políticas e dos nossos cafés da manhã barulhentos só para incomodar os vizinhos. muito do que sou e do que tenho me tornado devo a você.

ah, a quem possa interessar: três dias para matar (esse é o filme).

maria.

sempre vivo. sempre você.

semana passada eu sonhei com você.
e essa semana também.
sonhei tantas coisas. tantos sonhos em algumas noites. tantos sonhos em apenas um. tanta saudade e apenas você.
eu sinto tanto sua falta – e se você sabe disso, de alguma forma, não se entristeça, por favor. apenas não esqueça.
você sorria. ainda bem. porque seu sorriso sempre vai significar luz pra mim. onde quer que você esteja, continue sorrindo. seu sorriso é força.
às vezes a pressão de não ter mais você e ainda ter tanta vida sua, tanta lembrança de ti torna as coisas difíceis de suportar.
mas eu sei – ou tento saber, talvez não esquecer – que tudo tem seu propósito.
a vida é um teste.
a mãe também tem sonhado um monte com você.
em um dos meus sonhos você aparecia e eu gritava que você estava vivo. e eu ia dar essa notícia maravilhosa para todos que eu conhecia.
enquanto escrevo isso, meu coração aperta por saber que não passou de um sonho e nem todos os sonhos se tornam realidade.
eu não tenho muito com quem conversar. você sabe, eu sempre fui meio estranha. isso não mudou muito.
apesar de ter feitos alguns (poucos!) bons amigos por aqui, sou meio desconfiada. tenho essa mania de achar que estou incomodando, entende? mas, ainda assim, comentei desse sonho com uma amiga e ela falou algo do tipo: “quem sabe não é verdade?”, eu ri. o coração pequenininho por saber que isso é impossível. mas depois eu comecei a te imaginar num lugar calmo e bonito. como o parque em que eu costumo ir para espairecer. um lugar onde você esteja livre de todas as pressões desse mundo sujo. onde as pessoas invejosas já não possam te perseguir mais, onde pseudo-amores já não possam te fazer falsas declarações.
a sua filha é um anjo.
há tanto de você nela. risonha, atrevida, feliz. exatamente como você era. nesse momento já seguro as lágrimas porque estou longe de todas as pessoas que amo. e, infelizmente, nem todas elas poderei ver daqui a seis meses.
e ah, ela falou meu nome.
na cabeceira da minha cama tem uma foto nossa com o nosso caçula. juntos éramos imbatíveis. tão diferentes e ainda assim, tão parecidos. acho que o que tínhamos de mais parecido era o amor.
a foto é daquela viagem que fizemos em família.
hoje eu falei de você. mais uma vez. e espero que as pessoas não me vejam como vítima por ter perdido uma das pessoas que eu mais amei. apesar de que já não sou mais a mesma depois que você se foi.
eu te amo. sorri daí. continua aparecendo nos meus sonhos porque isso tem tornado minhas noites mais tranquilas.
obrigada por ter compartilhado a vida comigo.
maria.

home is where heart is

hoje deu saudades de casa.
saudades do feijão com arroz da minha mãe. das roupas com cheirinho de lar da minha avó — e da sopa de legumes com gosto de casa.
deu saudades do meu pai e dos nossos diálogos curtos, das nossas risadas longas e das nossas ferpadas mútuas. deu saudade de ter companhia para ir à igreja e, principalmente, deu saudade de ir à igreja. deu saudade da companhia do meu irmão caçula pra assistir série, comer pipoca ou só ficar deitado na cama. (assistir série comendo pipoca não é a mesma coisa sem ele).
deu saudade da minha sobrinha gritando por mim como se eu fosse algum tipo de salvadora ou pedindo que eu pegasse água pra ela — mesmo ela já tendo aprendido a pegar sozinha. e deu mais saudades ainda quando ela ligou por vídeochamada ontem e me chamou pra casa e nem pateou o braço manchado por estar com catapora. titia, vem! deu saudades.
deu saudades de casa.
deu saudades de casa ao comer feijão preto no almoço, depois de um bom tempo sem comer feijão preto. e deu saudades porque estava gostoso mas não tinha o mesmo gosto do que tem o da minha mãe.
deu saudades de casa ao conversar sobre casa com a minha amiga e a dor que a saudade dá.
e, definitivamente, eu não acho que seja só tpm.
deu saudades de casa assim que eu pisei nessa terra desconhecida. onde as pessoas não entendem o que eu falo e eu tampouco as entendo.
deu saudade de casa porque casa é onde o coração está e meu coração está nessas pessoas que eu amo com todas as minhas forças e fraquezas (que eles aceitam tão bem).

deu saudades quando resolvi caminhar no parque hoje pela manhã. para espairecer e agradecer. deu saudades quando vi uma senhorinha muito fofa e logo lembrei da minha avó. deu saudades quando eu vi um rapaz com a bermuda apertada e logo lembrei como meu irmão adorava roupas apertadas. deu saudade quando eu sonhei com ele umas duas noites atrás. deu saudade quando eu fiz pipoca e meu irmão caçula não estava aqui pra dividir. deu saudades quando eu comi repolho e não tinha minha mae pra dizer que também queria; ou quando eu comi brócolis e nao tinha meu pai para repetir cinco vezes numa mesma frase o quanto ele gosta de brócolis. deu saudade ver tanta criança e nenhuma delas ser minha sobrinha.

deu saudades porque amor acumulado causa esse aperto no peito (que nem sempre é gostoso de sentir).
deu saudades de casa mas eu ainda não cumpri o que vim fazer. na verdade a caminhada está só no início. e isso me parece um pouco cruel, isso de engolir o choro.
reter a saudade — e a falta que a falta faz.
controlar a ansiedade.
orar baixinho pedindo piedade e misericórdia. e proteção pra quem ficou lá.
realizar sonhos dói.
faltam cerca de duzentos e quarenta dias para que eu possa voltar para casa, consolar um pouco a alma desconsolada e cheia de saudades e voltar para minha outra casa. porque aqui agora é minha casa.
e mesmo que eu sinta uma saudade absurda do meu lar, aqui é onde eu posso chamar de casa, pelo menos pelos próximos anos.
saí hoje na rua e me senti em paz. fiz compras no mercado e senti que eu tenho a minha própria vida agora. e esse é um sentimento difícil de se conseguir. difícil de se preservar.
bem, a vida é isso, afinal. ir e vir quando não se pode ficar. quando não se tem um lugar definitivo para ficar porque apesar do meu lar ser as pessoas que eu amo, minha casa está a milhas de distância.

maria.