ao meu pai.

hoje meu pai me mandou uma mensagem dizendo que lembrou de mim com um filme. e eu não poderia ter ficado mais feliz.

em pleno domingo de preguiça. a quilômetros de distância. a horas de saudades.

meu pai lembrou de mim. com um típico filme que assistiríamos juntos. cheio de violência. um filme que diz muito sobre mim, sobre ele e sobre nossa relação. sinto saudades dele. todos os dias. mais do que imaginava que sentiria.

todas as vezes em que pego um metrô e me deparo com menininhas acompanhadas dos pais, lembro de quando meu pai ia me buscar no colégio – e de quando ele esquecia de me buscar no colégio e eu ficava uma mini fera, com um metro e meio, franjinha, mochila de rodinhas; voltava o percurso até em casa de cara amarrada. lembro quando ele começou a me ensinar a andar de bicicleta. mesmo não sendo a pessoa mais paciente do mundo e eu sendo a mais desajeitada. somos opostos e, ainda assim, extremamente parecidos. o que causava irritação nele era sempre algo que eu odiava também (ou que, ironicamente, eu adorava).

meu pai sempre foi meu herói mas eu nunca consegui dizer isso para ele. talvez pelo fato de nossas personalidades serem tão parecidas.

eu nunca fui a típica filhinha de papai pela qual ele esperou. pelo contrário, me tornei adolescente rápido demais, me interessei por assuntos polêmicos demais – e dos quais, na maioria das vezes, ele nunca tinha ouvido falar ou parado para pensar a respeito.

sempre tive uma perspectiva de vida maluca. e mostrei uma visão de mundo totalmente diferente da visão de mundo a qual meu pai estava acostumado. cresci num mundo tecnológico e desesperado. cresci querendo viajar o mundo. dominar doze línguas. ter três especialidades. não ter filhos e talvez nunca casar. ele passou a maior parte da infância e adolescência entre o campo e a praia (o que também me encanta mas que, nos meus planos, se encaixava apenas nas férias).

hoje, faltando três dias para meu pai comemorar mais um inverno, não estou ao lado dele. mas acredito que, como de praxe, serei a primeira a mandar mensagem (e assustá-lo por ser um sms as 12h da madrugada).

meu pai nunca foi de muitas declarações mas eu nunca vou esquecer todas as palavras de incentivo que ele já me disse um dia. todas as vezes em que ele apoiou algum sonho louco – incluindo mudar de país sem conhecer nada ou mesmo dominar a língua. todas as vezes em que se ofereceu para uma caminhada na praia ao me ver trancada a semana inteira no quarto ou todas as vezes em que orou por mim e me incentivou a ir a igreja para que fortalecermos a fé juntos. quando me disse que eu era especial – e me fez acreditar nisso quando mais ninguém no mundo foi capaz (nem minha querida psicóloga depois de inúmeras sessões ou mesmo meu psiquiatra depois de trocar meus remédios a cada quinze dias). quando me fez acreditar que só eu poderia ajuda-lo a resolver alguma coisa – mesmo que fosse a simplesmente fazer download de algum aplicativo no celular.

enquanto escrevo isso, em meio a pausas no filme que ele me recomendou, penso sobre uma das muitas conversas que já tive com minha mãe (e alguns textos que li) a despeito como nossa família e cada pessoa com quem cruzamos nesse mundo e na nossa caminhada é um presente divino.

meu pai me ensinou muito sobre respeito, caráter e resiliência. tenho tanto para falar e escrever sobre ele que daria um livro. histórias de meu pai. amores para meu pai.

títulos. nunca fui boa com títulos. meu pai sempre foi ótimo com isso. ele quem escolhia os nomes de todas as criações que tínhamos em casa – com a ajuda da minha mãe é claro. ao lado de todo grande homem existe uma grande mulher, como dizem por aí, afinal.

obrigada, pai. por me alegrar de longe. por me ensinar. por acreditar em mim e por repetir que tudo daria certo quando eu não acreditava mais. obrigada por me ajudar a voltar a acreditar sempre. todos os dias.

eu te amo, sua filha mais chata. saudades das nossas discussões de políticas e dos nossos cafés da manhã barulhentos só para incomodar os vizinhos. muito do que sou e do que tenho me tornado devo a você.

ah, a quem possa interessar: três dias para matar (esse é o filme).

maria.

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sempre vivo. sempre você.

semana passada eu sonhei com você.
e essa semana também.
sonhei tantas coisas. tantos sonhos em algumas noites. tantos sonhos em apenas um. tanta saudade e apenas você.
eu sinto tanto sua falta – e se você sabe disso, de alguma forma, não se entristeça, por favor. apenas não esqueça.
você sorria. ainda bem. porque seu sorriso sempre vai significar luz pra mim. onde quer que você esteja, continue sorrindo. seu sorriso é força.
às vezes a pressão de não ter mais você e ainda ter tanta vida sua, tanta lembrança de ti torna as coisas difíceis de suportar.
mas eu sei – ou tento saber, talvez não esquecer – que tudo tem seu propósito.
a vida é um teste.
a mãe também tem sonhado um monte com você.
em um dos meus sonhos você aparecia e eu gritava que você estava vivo. e eu ia dar essa notícia maravilhosa para todos que eu conhecia.
enquanto escrevo isso, meu coração aperta por saber que não passou de um sonho e nem todos os sonhos se tornam realidade.
eu não tenho muito com quem conversar. você sabe, eu sempre fui meio estranha. isso não mudou muito.
apesar de ter feitos alguns (poucos!) bons amigos por aqui, sou meio desconfiada. tenho essa mania de achar que estou incomodando, entende? mas, ainda assim, comentei desse sonho com uma amiga e ela falou algo do tipo: “quem sabe não é verdade?”, eu ri. o coração pequenininho por saber que isso é impossível. mas depois eu comecei a te imaginar num lugar calmo e bonito. como o parque em que eu costumo ir para espairecer. um lugar onde você esteja livre de todas as pressões desse mundo sujo. onde as pessoas invejosas já não possam te perseguir mais, onde pseudo-amores já não possam te fazer falsas declarações.
a sua filha é um anjo.
há tanto de você nela. risonha, atrevida, feliz. exatamente como você era. nesse momento já seguro as lágrimas porque estou longe de todas as pessoas que amo. e, infelizmente, nem todas elas poderei ver daqui a seis meses.
e ah, ela falou meu nome.
na cabeceira da minha cama tem uma foto nossa com o nosso caçula. juntos éramos imbatíveis. tão diferentes e ainda assim, tão parecidos. acho que o que tínhamos de mais parecido era o amor.
a foto é daquela viagem que fizemos em família.
hoje eu falei de você. mais uma vez. e espero que as pessoas não me vejam como vítima por ter perdido uma das pessoas que eu mais amei. apesar de que já não sou mais a mesma depois que você se foi.
eu te amo. sorri daí. continua aparecendo nos meus sonhos porque isso tem tornado minhas noites mais tranquilas.
obrigada por ter compartilhado a vida comigo.
maria.

home is where heart is

hoje deu saudades de casa.
saudades do feijão com arroz da minha mãe. das roupas com cheirinho de lar da minha avó — e da sopa de legumes com gosto de casa.
deu saudades do meu pai e dos nossos diálogos curtos, das nossas risadas longas e das nossas ferpadas mútuas. deu saudade de ter companhia para ir à igreja e, principalmente, deu saudade de ir à igreja. deu saudade da companhia do meu irmão caçula pra assistir série, comer pipoca ou só ficar deitado na cama. (assistir série comendo pipoca não é a mesma coisa sem ele).
deu saudade da minha sobrinha gritando por mim como se eu fosse algum tipo de salvadora ou pedindo que eu pegasse água pra ela — mesmo ela já tendo aprendido a pegar sozinha. e deu mais saudades ainda quando ela ligou por vídeochamada ontem e me chamou pra casa e nem pateou o braço manchado por estar com catapora. titia, vem! deu saudades.
deu saudades de casa.
deu saudades de casa ao comer feijão preto no almoço, depois de um bom tempo sem comer feijão preto. e deu saudades porque estava gostoso mas não tinha o mesmo gosto do que tem o da minha mãe.
deu saudades de casa ao conversar sobre casa com a minha amiga e a dor que a saudade dá.
e, definitivamente, eu não acho que seja só tpm.
deu saudades de casa assim que eu pisei nessa terra desconhecida. onde as pessoas não entendem o que eu falo e eu tampouco as entendo.
deu saudade de casa porque casa é onde o coração está e meu coração está nessas pessoas que eu amo com todas as minhas forças e fraquezas (que eles aceitam tão bem).

deu saudades quando resolvi caminhar no parque hoje pela manhã. para espairecer e agradecer. deu saudades quando vi uma senhorinha muito fofa e logo lembrei da minha avó. deu saudades quando eu vi um rapaz com a bermuda apertada e logo lembrei como meu irmão adorava roupas apertadas. deu saudade quando eu sonhei com ele umas duas noites atrás. deu saudade quando eu fiz pipoca e meu irmão caçula não estava aqui pra dividir. deu saudades quando eu comi repolho e não tinha minha mae pra dizer que também queria; ou quando eu comi brócolis e nao tinha meu pai para repetir cinco vezes numa mesma frase o quanto ele gosta de brócolis. deu saudade ver tanta criança e nenhuma delas ser minha sobrinha.

deu saudades porque amor acumulado causa esse aperto no peito (que nem sempre é gostoso de sentir).
deu saudades de casa mas eu ainda não cumpri o que vim fazer. na verdade a caminhada está só no início. e isso me parece um pouco cruel, isso de engolir o choro.
reter a saudade — e a falta que a falta faz.
controlar a ansiedade.
orar baixinho pedindo piedade e misericórdia. e proteção pra quem ficou lá.
realizar sonhos dói.
faltam cerca de duzentos e quarenta dias para que eu possa voltar para casa, consolar um pouco a alma desconsolada e cheia de saudades e voltar para minha outra casa. porque aqui agora é minha casa.
e mesmo que eu sinta uma saudade absurda do meu lar, aqui é onde eu posso chamar de casa, pelo menos pelos próximos anos.
saí hoje na rua e me senti em paz. fiz compras no mercado e senti que eu tenho a minha própria vida agora. e esse é um sentimento difícil de se conseguir. difícil de se preservar.
bem, a vida é isso, afinal. ir e vir quando não se pode ficar. quando não se tem um lugar definitivo para ficar porque apesar do meu lar ser as pessoas que eu amo, minha casa está a milhas de distância.

maria.

dezenove

treze de fevereiro de dois mil e dezoito.
é madrugada. uma e trinta e duas da manhã.
e eu só consigo pensar que daqui a cinco dias faz um ano que eu não tenho mais você.
dormi as dez da noite de ontem mas por algum motivo que não posso explicar, acordei duas horas depois. a insônia me pegou e os pensamentos meio soltos também.
e já é meu aniversário.
eu nunca gostei muito de datas comemorativas (isso mudou um pouco depois que completei quinze anos). sempre senti que não tinha muito o que comemorar, apesar de sempre ter tido muito o que agradecer.
esses clichês básicos que a gente (ocupado demais em desejar mais) esquece. não esquecemos que os possuímos mas esquecemos da importância que têm. cada pra voltar, cama pra deitar, água pra beber, comida pra comer, família pra apoiar. há um tempo comecei a olhar pra essas coisas com mais carinho e a perceber o real valor das coisas. foi então que eu entendi o sentido da frase: o valor das coisas não está em quanto elas custam mas em quanto elas valem.
e vale tanto ter um colo pra chorar. uma cama pra deitar depois de um dia ruim. uma comida pra confortar o estômago (e às vezes até mesmo a alma).
hoje eu faço dezenove anos.
na astrologia o ano de uma pessoa só começa depois do aniversário dela. então, digamos que meu ano se inicia hoje. se iniciou a uma hora e dez minutos atrás (já são onze e meia da noite).
e por ironia do destino, talvez, me sinto muito mais velha, afinal, idade são só números. e, convenhamos, números não definem muita coisa nos tempos atuais (e, quiçá, nunca tenham definido).
depois de tudo que a vida me fez passar e de tudo que me fez aprender, a idade da alma já não condiz com a idade da certidão de nascimento.
há um ano atrás eu lembro de estar triste porque tinha que ir para a faculdade ao invés de comemorar de alguma forma o ano que chegava. lembro que eu não estava nem um pouco feliz em estar indo para um dos lugares que eu mais detestava na época. e mesmo assim eu fui, algumas coisas a gente precisa encarar mesmo que o desconforto seja enorme, ofícios da vida adulta.
na época eu ainda fumava, então eu fumei bastante naquele dia. comi bastante doce mesmo sabendo que minha gastrite poderia atacar.
e na volta para casa eu comecei a agradecer e até chorei porque eu queria mais, mesmo tendo tanto. eu queria que dessem uma importância maior aquele momento e ao fato de que aquele dia marcava dezoito anos da minha existência, ainda que cada um estivesse ocupado tentando fazer jus a sua própria existência.
mas o mundo continuava o mesmo. não fazia a menor diferença em nada. era só mais um dia normal. e aquilo parecia um pouco injusto. datas como essa não devem ser comemoradas? não foi isso que exigiram de mim há três anos atrás, que eu comemorasse cada ano novo que me era concedido?
mas mal sabia eu que seria o aniversário que mais marcaria a minha vida.
cinco dias.
com exatos cinco dias depois de eu me tornar maior de idade, eu sofri a maior perda da minha vida.
recebi a pior notícia que eu poderia ter recebido.
eu tinha pessoas amadas ao meu lado. e você era uma delas.
te perder não estava no script. não fazia parte do plano, do meu plano de vida.
e mesmo assim eu te perdi porque a vida não é novela, a vida não segue um roteiro como a gente escreve na nossa mente.
o plano era que você entraria comigo no dia da minha formatura (e eu sempre falava sobre isso). o plano era que eu ainda ia viver muita coisa com você. que ainda viveríamos aventuras onde não teríamos tempo para fotografias. o plano era outro. oposto do que a realidade me pregava naquele momento.
mas os planos não são meus, como a mãe sempre ensinou. os planos são dEle e Ele havia decidido que tua passagem já tinha marcado o que tinha que marcar e agora era hora de partir.
eu sofro muito em pensar sobre isso. inclusive, hoje chorei no meio de um bloco de carnaval porque o vocalista da banda cantou o trecho de uma das músicas que mais me lembra você.
às vezes tudo isso me soa um tanto quanto injusto e até cruel. até porque você sempre foi quem mais quis viver, então, qual o sentido da vida ser tirada de ti tão depressa? você tinha acabado de completar vinte e três anos.
mas não se preocupa, eu não grito blasfêmias contra o Pai mais.
não deixei de crer. pelo contrário, a dor me fez crer ainda mais. acredita que agora eu voltei a frequentar a igreja aos sábados? a dor me fez crescer. me fez perceber coisas que eu nunca tinha visto ou para as quais eu nunca tinha olhado da forma que olho agora. mudança de percepção.
a dor faz isso né? ela não é só sacana. a perda é uma das melhores professoras desse playground chamado vida, se não a melhor.
talvez a mais cruel também.
e eu aprendi tanto desde que você se foi.
larguei aquele amor que você não achava certo (você tinha razão, eu ia me magoar. e eu me magoei, na verdade). larguei a faculdade e vou seguir meu sonho agora, cursar o que eu sempre quis. larguei o cigarro e os remédios. larguei algumas futilidades também.
abri mão de muita coisa que nada acrescentava.
e eu sei aqui dentro de mim que, apesar de doer tanto e me deixar com tantos questionamentos, foi o melhor que poderia ter acontecido.
e, de alguma forma, tudo vai acabar bem.
ontem saí pela rua da cidade com a mãe e a gente não conseguiu evitar a lembrança de você. vi seu antigo amor, aquela moça que eu nunca aprovei. e vi pessoas dançando como você costumava fazer. bebendo tanto quanto você costumava beber. e sendo felizes como você costumava ser.
e eu nem chorei (só chorei hoje porque a saudade foi mais forte). mesmo com toda essa lembrança. com toda essa saudade.
hoje a gente fez como costumamos fazer nos aniversários: saímos para comer pizza. mas faltou você. agora eu como mais, como por mim e por você (talvez nem tanto). recebi uma mensagem que me emocionou. me disseram que apesar de você não está mais nesse plano, você ainda está comigo. e eu concordo. e acredito.
enquanto escrevo isso lembro do último abraço que você me deu. do último beijo. do último adeus. do último ‘não se preocupa’ que você falou. e puta merda como dói, sabe? é um aperto no peito sem igual. mas eu sei que você tá guardado e que você tá me vendo e torcendo por mim de onde você estiver.
e de onde você estiver, se cuida.
amo você.
maria.

coisas que talvez não tenham sido ditas

oi, tudo bem com você? como vão as coisas por aí? finalmente  tomando o rumo que devem tomar ou ainda a mil por hora?

não esquece que algumas vezes as coisas tomam um rumo diferente do que planejamos e oh: tudo bem. é nesse trecho diferente que, de início julgamos errado, que tudo começa a se ajeitar.
no meio da minha soneca da tarde (tive uma noite daquelas, mais uma vez, como tu dizias: de zumbi), você apareceu. e essa espécie de carta ou texto aberto (que você provavelmente nunca lerá), apareceu junto.
quando despertei, depois de muito relutar, sorri aliviada porque dessa vez a música das vizinhas é mais suave. e parece ser das boas.
e além de suave, fala sobre amor e a chance de amar.
e é uma das que costumava ouvir durante minha precoce adolescência, descobri depois de uns minutos, porque como Vicente percebeu: sou um pouco lerda. principalmente ao acordar.

enfim.
queria te dizer umas coisas que talvez não tenham ficado claras ou mesmo não tenham sido ditas.
senta. coloca a água para ferver, vamos tomar um chá. o meu sem açúcar e quente, por favor.
quero que você saiba que não guardo qualquer rancor, nem de você e nem de ninguém, apesar de ter feito isso por muito tempo do meu curto período de vida.
aprendi que é uma das coisas que não vale a pena a energia depositada. ou mesmo as enxaquecas.
quero que você saiba que, de onde estivermos, separados e sem trocarmos uma palavra — mesmo depois de termos trocado quase o dicionário inteiro —, eu torço por você.
e eu torço muito.
você tem uma doçura que me conquistou rapidamente demais.
como eu sempre disse, você é bonzinho.
e, parece que ser bonzinho hoje em dia se tornou uma ofensa, mas por aqui ainda é elogio. ainda bem. continue assim. mesmo que as vezes ser bonzinho machuque, não existe nada melhor do que a paz de uma consciência tranquila.
eu sei, apesar de você nunca ter me dito diretamente, que as coisas também não são fáceis para você. nunca foram. mas aproveita a jornada, mesmo que o joelho esteja ralado e o coração cansado, isso é um clichê que até se torna estúpido de tanto que é repetido.
para de tentar chamar a atenção de quem já te machucou demais — e já teve tua atenção demais. em alguns momentos devemos abrir mão, deixar ir. por mais que doa.
como eu costumo dizer para o meu pai: faça o seu. mas também não perca muito tempo se concentrando no que o outro fez ou faz. e, caso isso esteja diretamente ligado à você, a ação do outro, eu quero dizer: pula do barco. barco furado não precisa que a gente canse os braços remando porque o final dele é apenas um: afundar.
e não se deixe afundar. você é mais do que todos os machucados que carrega. deixe suas cicatrizes serem o que são: cicatrizes. algumas feridas precisam sarar, deixe que sarem. cuide para que sarem.
eu sei que não acabamos muito bem essa coisa toda (que nem sequer tivemos a chance de começar), mas tudo bem. algumas coisas terminam antes mesmo do fim ser anunciado. ou, nesse caso, do começo ser declarado.
as coisas foram se complicando. e se complicando. e se complicando mais um pouco.
talvez tenhamos sido vítimas do tempo. mal calculado. precipitado. errado.
ah, o tempo. ele tem dessas, né?! a vida tem.
mas tudo bem.
depois de muito pensar sobre tudo isso. depois de muito preocupar meus amigos com tudo isso. depois de muito alugar minha mãe com tudo isso, resolvi que tudo bem.
entendo que a vida não é via de mão única e que o que eu tenho feito, apesar de muitas vezes querer o contrário, não pode ser feito sozinho. mas, mais uma vez: fiz a minha parte.
e, poucas vezes na vida tive tanta certeza de ter feito minha parte perfeitamente bem. dentro do possível, claro. humanos e perfeição não ornam.
não me entenda mal. não quero me gabar de nada que fiz, não sou assim. você deve ter percebido. mas quero te dizer que minha consciência anda tranquila, pelo menos quanto a isso. depois de muito analisar o que eu poderia ter feito de errado, onde poderia ter agido de maneira que causasse tudo que estava acontecendo.
cheguei à conclusão que eu nada tinha haver (ou seria a ver?) com aquilo. era tua batalha interna que estava te consumindo.
e eu me afastei.
depois de você se afastar.
é preciso respeitar o tempo dos outros. cada pessoa tem seu tempo, cada coisa tem seu tempo. e isso é universal.
então, eu sentei sozinha, enquanto a água do meu chá fervia. e pensei. e eu senti uma angústia absurda porque caminhar sozinho nessa vida pode ser sufocante quando cansados. o chá ficou pronto. e eu voltei a pensar. depois de queimar o dedo, claro. você escolheu isso.
e é outra coisa que precisa ser respeitada: a escolha alheia.
engraçado, enquanto escrevo isso, me dei conta de que mudaram a música na caixa de baixo. agora é algo sobre tudo tem seu tempo e nada foi um erro.
as vezes o universo manda uns sinais loucos. e que não entendemos, absortos na ignorância humana. mas ainda bem que existem as exceções. que é quando compreendemos os sinais enviados.
eu sei que não foi um erro. acredito muito naquela coisa de que tudo coopera para um bem.
o que machuca a gente vira um aprendizado danado quando permitimos que tome forma e pare de ser dor.
se as coisas ainda estiverem conturbadas por aí, não esquece de quem te quer bem.
e isso não é uma cobrança.
fica bem.
e outra coisa: não para de sonhar não.
a vida já é muito cinza, continue a colorir a sua com seus hobbies. até isso é inteligente em você.
beijos,
maria.

valorize sua luta

não falo muito da minha vida pra ninguém.
confio em algumas pessoas, sem dúvidas. mas, em certas áreas da minhas, certos planos e sonhos, só cabe a mim saber.
eu sei que muita gente torce por mim (gratidão por isso), mas as vezes o universo entende essa torcida de uma maneira distorcida e isso é perigoso porque já não dá mais para voltar atrás por conta de pequenos imprevistos.
eu prefiro falar sozinha, conversar com Deus ou simplesmente escrever.
conheci o namorado de uma das minhas melhores amigas um dia desses e tagarelei bastante. falei pra eles como minha vida foi no último ano. mas algumas coisas ficaram subentendidas ou, até mesmo, ocultas. como eu disse: algumas coisas são só minhas.
claro que tem coisa que eu vivo na companhia de certas pessoas e isso faz com que elas saibam muito sobre determinado momento, mas não sabem tudo. não sabem tudo porque tem coisa que acontece só dentro de mim.
alugo as pessoas, sim. e muito. com todos os meus dramas e medo e constantes (inconstantes, principalmente). mas algumas coisas, cabem só a mim.
no escuro do meu quase-quarto choro a dor de não ter mais meu irmão por perto e como isso me machuca. em como o tempo passar rápido e isso me assusta. grito a ansiedade que queima no meu peito e não tenho mais o auxílio de um ansiolítico que adormeça tudo que acontece aqui dentro. me sinto sozinha e ignorada — e choro por isso também. a agonia bate e, como sempre, eu apanho. peço clemência e misericórdia a Deus.
será que dai estás me vendo? será que contemplas a minha dor e minha angústia?
pergunto se tenho feito um bom trabalho ou se só tenho causado tristeza em seu coração.
me perdoo. peço perdão.
conto dos meus sonhos secretos e que, até pouco tempo estavam esquecidos dentro de mim, mas que Ele fez questão de acorda-los — mais uma nota-pra-mim-mesma: não esconder ou mesmo esquecer meus sonhos. me deixar ser movida por eles.
sempre foi algo que eu achei sem sentido quando falavam: siga seus sonhos e deixe eles te guiarem (há quem diga: deixe eles te matarem, meio mórbido, mas faz bastante sentido. porque quando algo te move, de certa forma, tem uma espécie de comando sobre você).
mas me guiarem pra onde? me guiarem como? eu sempre me perguntava esse tipo de coisa. e entrava em desespero pensando se eu tinha, realmente, algum sonho. de qualquer tipo.
mas a vida é cheia de insights, o universo cheio de mensagens.
basta que desaceleramos um pouco e pensemos o que vale a pena nosso esforço. se te aquece o coração, merece teu empenho. se te dá dor de cabeça e te faz repensar quem você é: deixa ir. nem toda dor de cabeça é ruim, mas sem dúvida, tudo que te faz contestar tanto quem tu és, não merece tua atenção (ou mesmo sofrimento).
você precisa da certeza de ser quem és e não de mais duzentas coisas te fazendo questionar isso.
você já passou muito tempo se reafirmando para caber na realidade dos outros. não atrapalha teu processo evolutivo por medo do que podem pensar. continua na tua caminhada, nas tuas certezas e até mesmo nas incertezas. para de dar murro em ponta de faca e de tentar esconder quem tu és só porque não parece apropriado.
foda-se as apropriações que te diminuem. nunca mais diminua quem você é. deu (e ainda dá) muito trabalho te manter de pé. vá em frente.
que aguentem (ou surtem) quem tu te tornasse.
como dizem: você lutou demais para se tornar quem você é. orgulhe-se do seu trabalho. você é a maior obra de arte já criada. a beleza das outras obras não diminuem a tua. há beleza em todo lugar, admire-a mas nunca mais tente ser como ninguém. outra coisa que custou mas eu aprendi: seu super poder é ser você, os demais já existem. pode parecer uma conversa boba ou até mesmo conselho de gente que não tem o que falar. mas tem fundamento. pensa em todas as qualidades de quem tu admiras. então, já existem. as tuas qualidades, por mais parecidas com as de alguém, são só suas.
esse jeito de ver beleza no cinza. essa coisa de apoiar quem nem sempre merece apoio.
cada um sabe a luta que travou (e trava diariamente) para estar exatamente onde está. não anule a luta do outro e nem desmereça a sua.
nenhuma luta é mais válida que a outra. não desmereça sua caminhada porque a do outro parece ter mais espinhos na estrada.
tudo está conectado. seja um bom vizinho. mas, principalmente, seja um bom anfitrião consigo mesma. você merece isso. você precisa disso.
maria.

que nunca nos falte fé

então, é natal! ou melhor, semana de natal. já estamos a espera do revéillon, ou melhor, do ano novo.

uma época marcada pelos reencontros, pelo entusiasmo que a sua pessoas carregam em seu interior, pelas comidas típicas e causadoras da divisão entre: o grupo que aprecia uva passa no arroz e o grupo que tem pavor dessa mania, pela autorreflexão a que cada um de nós se aí submete.

sempre ouvi que essa época de fim de ano é uma época de renovação e autoavaliação.
você pensa a respeito de tudo que viveu, tudo que passou, como agiu mediante diversas situações e como reagiria melhor as mesmas. avalia cada um dos trezentos e sessenta e cinco dias — ou a maior e mais marcante parte deles. pensa nos momentos em que sentiu e em tudo o que sentiu — solidão, felicidade, medo, angústia. em como as coisas estão atualmente e se você se sente confortável nessa posição, quer dizer, talvez você pudesse voltar lá naquele dia que tudo deu errado e você achou que era o fim do mundo, só para rir de si mesma e gritar: larga de ser boba, ainda vai ter muito erro, enxuga as lágrimas que ainda tem mais. pensa se, de fato, reagiria diferente em alguma situação — como largar logo o que te prendia e sugava, para de procrastinar o que deveria ter feito na primeira oportunidade.

mas aí você lembra que nem tudo está perdido. lembra do fator positivo do sofrimento: por mais que a dor machuque, ela ensina. pensa nos momentos em que mais se sentiu sozinha e abandonada nesse mundo com mais de sete bilhões de pessoas (e nenhuma pra te fazer companhia) mas lembra mais uma coisa que aprendeu ao longo dos anos: por mais que a solidão amedronte, ela te ensina o real valor do amor-próprio e do autosuporte. afinal, a linha entre solidão e amor-próprio é tão tênue que, muitas vezes, não conseguimos sequer diferenciar um do outro.
é como uma historinha que li certa vez: depois de um dia longo e cansativo, você chega em casa e se encontra sozinho, senta na poltrona e decide do que isso se trata. se de amor-próprio e autocompanheirismo ou solidão. algumas escolhas são feitas diretamente por nós. e elas precisam ser feitas. decisões precisam ser tomadas, afinal.
um dos medos do século é justamente isso: a solidão que assombra todas as almas. estar mais de vinte e não ter encontrado ninguém. estar com mais de quarenta e, ainda não ter ninguém. são nesses momentos tidos como de desespero que devemos nos lembrar que não estamos sozinhos, somos nossos maiores companheiros (papo de livro de autoajuda que, na prática, funciona!).
somos o que fazemos das situações com as quais nos deparamos. como você reage a solidão é o que vai te ensinar — e, muitas vezes, até mesmo te moldar. mas lembre-se: te moldar, não te definir.
do que eu falava mesmo?
ah, sim. pois é, a época e essa sensação de renovação.
não sei o que acontece, de fato, com o ser humano que cria esperança ao saber que o ano está acabando e um simples feriado, uma simples data, vai mudar a vida delas.
mas acontece.

e, talvez, isso se dê pelo término de um ciclo e começo de outro. como se o final de um ano e o outro batendo à porta, despertasse a esperança que já estava se esgotando, afinal, a correria e as decepções diárias não trazem só ensinamento, não é mesmo?
é como se nos primeiros meses do ano estivéssemos com todo o gás pela mudança, mas no meio do ano esse gás vai evaporando e só se renova no último mês do ano. como a gente coloca água para ferver e esquece de ficar de olho, quando nos damos conta: lá se foi a água e a panela — que queimou. interprete a metáfora como melhor convir.
não se pode negar o encanto de dezembro.
há quem odeie essas épocas – talvez seja coisa de gente que nada contra maré, corre contra a maratona ou até mesmo já desistiu de qualquer ameaça de renovação. como se isso as amedrontasse e elas precisassem fugir, mesmo sem se dar contas.
também há as pessoas que não têm boas lembranças em datas como essas.
por exemplo, hoje conversei com uma moça que perdeu o marido há um ano (completos na véspera de natal). e, sabemos, que a dor da perda pode ser a pior dor dessa vida. nunca mais aquela data será a mesma. o que antes era alegria e comemoração, se transforma num dia cheio de lágrimas e saudades.
pelo menos por aqui (na minha casa, com minha família e aqui dentro de mim) é assim que funciona. a data não é mais aquela alegria e entusiasmo onde a ceia era servida as dez da noite porque todo mundo já estava quase desmaiando de fome – e também porque tradição nunca foi nosso forte. não tem mais a curiosidade de saber o que se fazer depois de comer até que fosse necessário abrir o botão da roupa. ou as gargalhadas regadas por vinho e arroz com passas (que meu irmão fazia questão de catar — ou então atolava tudo na boca sem sequer mastigar). e é justamente por isso que a data não traz mais a mesma alegria de antes.
talvez um dia isso mude, afinal estamos sujeitos a renovações e surpresas. mas hoje é isso que significa: saudade.
e tudo bem também sentir essa renovação. eu sinto. talvez você sinta também. meus pais sentem.
em uma conversa com minha mãe e as amigas dela, falávamos de como a gente está desesperada por colocar em prática os planos que fizemos durante o ano que está no fim — e até mesmo planos que fizemos a anos mas nunca tivemos coragem para pôr em prática.
e o estômago revira com o medo de que não seja posto em jogo novamente. que desistamos e sejamos sempre os mesmos. ou então que seja feito dessa vez, mas a surpresa seja um sentimento de frustração e não de satisfação.
mas aí uma voz dentro de mim já grita: você não é a mesma faz tempo. e aí eu lembro que todo os dias me renovo e esse fim de ciclo já me dá um pouco mais de esperança. e que tudo bem se frustrar um pouco, a satisfação também vem — ainda que demore.
preciso comprar uma agenda e anotar todos os planos novos.
e, principalmente, esses velhos que foram esquecidos e deixados de lado.
que a gente nunca esqueça de acreditar, independente da época.
a esperança por si só já é uma renovação do caralho, se me permite dizer. não espere o fim do ano para renovar suas forças, sua esperança ou qualquer sentimento que te faça arrepiar. renove todos os dias, você merece.

e ah, que nesse ano novo as pessoas tóxicas e as manias autodestrutivas não nos acompanhem. já não cabem mais por aqui. e, principalmente: que nunca nos falte fé.

maria.